julho 09, 2015

[Resenha] A Cidade Murada – Ryan Graudin

A
Cidade Murada é um terreno com ruas estreitas e sujas, onde vivem traficantes,
assassinos e prostitutas. É também onde mora Dai, um garoto com um passado que
o assombra. Para alcançar sua liberdade, ele terá de se envolver com a
principal gangue e formar uma dupla com alguém que consiga fazer entregas de
drogas muito rápido. Alguém como Jin, uma garota ágil e esperta que finge ser
um menino para permanecer em segurança e procurar sua irmã. Mei Yee está mais
perto do que ela imagina: presa num bordel, sonhando em fugir… até que Dai
cruza seu caminho. Inspirado num lugar que existiu, este romance cheio de
adrenalina acompanha três jovens unidos pelo destino numa tentativa desesperada
de escapar desse labirinto.

Jovem Adulto | 400 Páginas
| Cortesia
Editora Seguinte| Skoob |
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SaraivaSubmarinoAmazon | Classificação: 4/5
A Cidade Murada é uma obra que
surpreende por ir além dos estereótipos tão comuns na literatura juvenil. Como
esperado a trama traz ação, fantasia e romance, entretanto, ela encanta por
também abordar temas extremamente reais e reflexivos. Os três personagens
principais são imaturos em muitos sentidos, contudo eles passaram por tantas
provações que refletem no olhar o peso da solidão, da pobreza, da fome – tanto
por carinho quanto de alimento –, e dos anos de abuso físico, moral e sexual.
Sendo assim, a história que era para ser uma fantasia juvenil repleta de
aventura e mistério, tornou-se um jovem adulto maduro marcado pela dor dos
protagonistas. Por isso é impossível não se deixar levar pelas emoções
descritas por cada um desses jovens; torci enlouquecidamente para que eles
conseguissem fugir dos sentimentos de medo, indignação e raiva causados
pelo ambiente sombrio da Cidade Murada, mas antes disso almejei que eles superassem
toda a tragédia e a mágoa que os levaram a morar em um lugar sem leis e sem
esperança. Portanto, em uma mescla de emoções e revelações, me deixei levar por
essa história tão rica e inteligente.


Hank Nam, mais conhecida como a cidade murada, já foi um
território de refúgio político. Depois da guerra a região ficou legalmente
abandonada, servindo de abrigo para todos os bandidos e desabrigados das
cidades vizinhas. Assim, sem o olhar atento de um governo presente, a cidade
foi crescendo de forma precária e desatenta, dando espaço para o avanço da
criminalidade e da pobreza. A descrição dada pela autora é de que o local é o
refúgio da escória da sociedade, e fisicamente abriga mais pessoas do que
poderia, parecendo um emaranhado de casas
altas que tampam a luz do sol.
É mais fácil imaginar
a tal cidade quando a comparamos com uma favela – e não apenas em sua
aparência, mas por causa do tráfico humano, do abuso sexual, do comércio de
drogas, das mortes e dos roubos que sempre ficam impunes. Mas a diferença é
que, ao contrário de algumas de nossas favelas, não existe um mísero resquício de
bondade na cidade criada pela
Ryan Graudin; nela praticamente tudo
foi corrompido ou ferido.

O sofrimento está em
toda parte. Rastejando dentro das oficinas de aço e tecelagens, onde os
trabalhadores se curvam sobre as máquinas durante catorze horas todos os dias.
Correndo entre as prostitutas viciadas e os adolescentes marcados por faca.
Espreitando as mesas em que bêbados jogam dinheiro um no outro e xingam quando
perdem suas apostas em pombos de corrida. Normalmente consigo ignorar, olhar
para o outro lado, continuar andando. Dessa vez não.

A obra foca na luta dos protagonistas: Dai, o rapaz que foge
da polícia e que está cumprindo uma missão em Hank Nam, algo que dará a ele sua
almejada liberdade; a bela Mei Yee, que foi vendida pelo pai e que vive como uma
das garotas do bordel; e a jovem Jin, que finge ser um menino enquanto procura a
irmã – há muito raptada – pelas ruas e becos da cidade murada. Além do mistério
do passado desses jovens, a autora também trabalha com a possibilidade deles
fugirem de Hank Nam, e no fato de suas histórias estarem interligadas. – Que é
que não fica curioso com uma premissa assim?


O livro  é narrado sob três pontos de vista: o do Dai,
da Mei Yee, e da Jin. De início isso me assustou, afinal imaginei que seria
difícil me conectar com personagens tão distintos, entretanto foi surpreendentemente
fácil mergulhar na vida e na narrativa desses jovens. E o mais incrível da obra
é, sem dúvida, que os três levam vidas dolorosamente reais. A história de Dai é
de um menino que tinha tudo, mas se envolveu com as pessoas erradas e acabou
sem nada. Jin é uma jovem guerreira que passou anos apanhando de um pai
alcoólatra e que agora rouba para sobreviver. E Mei Yee – para mim a história
dela foi a pior de todas – foi vendida e transformada em um objeto, e nas mãos
de homens inescrupulosos foi perdendo sua inocência de menina e a fé no mundo
lá fora. Portanto a questão não é a comoção gerada por tais histórias, mas sim a
reflexão. Afinal, vocês conseguem imaginar quantos jovens espalhados pelo mundo
possuem histórias semelhantes a dos protagonistas? Durante a leitura, enquanto
os personagens revelam as mágoas que carregam no peito, senti nojo da
humanidade, principalmente dos homens que são responsáveis pela corrupção de
crianças puras e sonhadoras. Chorei com Dai, Jin e Mei Yee e com o fato deles
lutarem por um futuro diferente, mesmo quando ninguém acredita que eles serão
capazes de se libertar do passado.
Paralelo ao drama de cada personagem, também temos a junção
de suas histórias e a aventura na qual eles embarcam almejando um novo futuro.
AMEI como as histórias de Dai, Jin e Mei Yee tornam-se uma só. Essa
característica, além de tornar a leitura mais fluida e envolvente, gera sentimentos
conflitantes de desconfiança, esperança e amizade. O que marca o coração do
leitor de uma maneira inexplicável. Já quanto ao desenrolar da aventura, eu
literalmente prendi a respiração com esses jovens. Eles passam por muitos
obstáculos e é incrível ver como eles, juntos, superam medos que nem sabiam que
existiam. Confesso que achei o final romantizado; foi difícil acreditar que jovens
de 18 a 15 anos seriam capazes de tamanhas artimanhas, entretanto isso não
diminui a beleza por trás dessa história, muito menos de sua valiosa mensagem de
reflexão social e humanitária.
No geral, o livro é encantador, surpreendente, dramático e
reflexivo. A mensagem
é do tipo que faz a história subir um patamar e
se transformar em uma rica coletânea de amadurecimento e aprendizagem.
• Curiosidade •

Vocês sabiam que a cidade murada já existiu?
Ela teve origem em meados do século XIX e chegou a abrigar 33 mil residentes
dentro de seu território de apenas 0,3 km²
.
No livro a autora explica que foi visitar a
região da cidade, hoje demolida e transformada em um parque, e então teve a
ideia do livro.
Saiba mais sobre a cidade murada aqui.
Beijos,

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26 Comentários

  • Becca Martins
    06 agosto, 2015

    Oi Pah!
    Eu vi o Vitor do Geek Freak super elogiando o livro! Mas, não sei, acho que a história não me interessou entende?
    Tipo, não costumo ler livros assim e se eu pego para ler eu acabo abandonando.
    Então vou deixar passar esta.
    Beijocas!

  • Amanda Arrais
    26 julho, 2015

    Acredito que sem ler a resenha eu nunca iria chegar a ler esse livro… a capa dele não chamou muito minha atenção e eu também não conhecia a cidade murada, a que existe de verdade.. então foi uma bela surpresa ler essa resenha…
    Eu gosto dessa mistura ficção realidade.. e essa garra,essa força dos personagens é cativante.. assim que tiver a oportunidade irei ler com toda a certeza..

  • sara sem h
    25 julho, 2015

    Eu tinha visto a capa desse livro em algum lugar, mas não li muito a respeito, pois pensei que seria uma história que já conheço (achei que era adaptação de um filme, mas no filme é uma cidade subterrânea, haha). Agora estou interessada, parece um livro ~de arrepiar~ Já entrou pra minha lista 😉
    E eu não fazia ideia da existência da cidade murada ~real~ haha

  • Algumas pessoas me falaram muito bem sobre esse livro. Confesso que ainda não tive tanta curiosidade de ler, seria um livro que leria ao acaso, não sei se buscaria tanto lê-lo.

  • Andreza Galvão
    22 julho, 2015

    Oi, Paola! Gostei do livro, o drama parece ter sido bem construído e a escolha do ambiente foi bem bacana, por ter tido como inspiração algo que realmente existiu. Mas não me cativou, sabe? Esse é um livro que não leria, infelizmente.

  • Thuanne Souza
    22 julho, 2015

    Olá,

    Nossa, muito legal! A história parece ser incrível, daquelas que prendem o leitor.
    Mas parece ser muito triste também.. Certeza que vou chorar se ler!

    Beijo.

  • amanda souza
    17 julho, 2015

    Acho interessante o enrendo desse livro mas não leria, não nesse momento. Parabéns pela resenha!!!!

  • Aline Stroeher
    16 julho, 2015

    Oi Pah!
    Que livro é esse???
    Fiquei chocada/encantada/impressionada somente com a resenha! Imagine com as 400 páginas do livro? Com certeza já adicionei ele na minha wishlist! 🙂
    Confesso que achei a capa meio fraquinha, sou daquelas que compra um livro pela capa, sim! Afinal, a capa é a embalagem do livro não?
    Mas depois dessa sua resenha a capa não tem a menor importância!
    Obrigada pela ótima indicação!
    Beijinhos!

  • Planet Pink
    14 julho, 2015

    Não conhecia esse livro, Pah.
    Mas fiquei bem curiosa com a premissa e com sua excelente resenha.

    Beijocas

  • Bianca Viegas
    13 julho, 2015

    Olá!
    Adorei a resenha, quero muito ler esse livro!
    Já tinha lidos outras resenhas e todas foram positivas.
    Gostei muito da história e dos personagens por serem reais e verdadeiros. Bem legal quando um livro nos faz enxergar e refletir sobre coisas que acontecem, mas por estarem longe de nossa visão ou do nosso cotiano não percebemos, não damos valor.

  • Leticia
    13 julho, 2015

    Oi Pah..
    Eu tenho imensa vontade de ler este livro. Eu sabia que a cidade já tinha existido, e que ela é mais do que a favela que conhecemos. Sem dúvida (pelas resenhas que vejo) deveria ter muito mais crueldade lá mesmo.
    Um livro com certeza de muita aprendizagem e reflexão como você falou. E eu adoroooo livros assim. Espero não demorar para ler.

    livrosvamosdevoralos.blogspot.com.br

  • Thays Suenaga
    12 julho, 2015

    Que livro! não conhecia mas vou procurá-lo. uma história segura, que emociona e nos mostra esse lado do ser humano, que luta, que não desiste apesar do sofrimento. e muito interessante que o livro sai do comum nos levando a China.

  • Dilza Sousa
    11 julho, 2015

    Oi, Pah!
    Realmente não tem como não ficar curiosa com uma premissa dessas!! Nossa, não imaginava que o livro ia ser tão forte e tratar da vida tão difícil desses jovens. Com certeza é uma leitura bem tocante mas que infelizmente mostra a realidade.
    Amei sua resenha! Bjo <3

  • Que resenha rica, parabéns!
    Naquele meu clichê: deu vontade de ler. Adoro dramas com personagens "pequenos", mas com peso nas costas imenso. Gosto de mergulhar em histórias ricas de coisas um tanto "podres" digamos assim, os sentimentos desencadeados com essa realidade dos personagens. Parabéns para a autora ousar escrever algo assim, com jovens vivendo de forma tão turra, e também por desenterrar um local com tamanha obscuridade e traze-lo para o leitor conhecer.
    Fato de que quando vi a capa não dei muito pra história, porém isso se olhado de relance, pois se tiver uma vista minuciosa dá pra se encantar com o jogo de cores e a grafia.
    Beijos

  • Julia Duarte
    10 julho, 2015

    Nunca iria me interessar por esse livro se não tivesse lido essa resenha, aliás acho a capa bem feinha, me lembra aqueles livros clássicos que são obrigatórios para se fazer o vestibular. Mas adorei a história, ultimamente ando atrás de livros assim, acho que cansei um pouco de romances, esse então foi pra minha enorme lista, obrigada pela resenha incrível.

  • RUDYNALVA
    10 julho, 2015

    pah!
    A vida real dá margem a bons livros.
    Imagino toda agonia passada pelos adolescente para conseguirem se safar do que os estão imputando, além da fome e da miséria.
    Deve mesmo ser um livro bem enriquecedor do ponto de vista de avaliar as dificuldades e a superação.
    “Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.”(Fernando Pessoa)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    Participe no nosso Top Comentarista!

  • Emanoelle Souza
    10 julho, 2015

    sem duvidas um livro que todos deveriam ler, eu já vou providenciar o meu exemplar porque gostei muito da resenha e aborda um tema bem diferente dos que eu costumo ler.

  • Mariele Antonello
    10 julho, 2015

    Adorei a resenha!
    Achei interessantíssimo o livro, parece ser uma história ótima.
    Pretendo ler futuramente, sempre é bom mudar de gênero, e ler livros diferentes do que estamos acostumados a ler.

  • Maria Inês
    10 julho, 2015

    Oi pah, fiquei muito interessada no livro, realmente parece uma trama envolvente… Bjos

  • Fran Ferreira
    10 julho, 2015

    Pah, eu já estou tão saturada em filmes com esse enredo ou com algum item similar, que não consegui ver toda sequência descrita por você. Me desculpa por não mais nada a descrever.

    Bjsss

  • Alessandra Fernandes
    10 julho, 2015

    O livro pareceu ser interessante e envolvente, do tipo que só dá para largar depois de ler a última página. Bem legal a história ser inspirada em algo real. Os personagens parecem fortes e com características únicas! Entrou pra minha listinha!

  • Evellyn Mendonça
    10 julho, 2015

    Ooi Pah,
    Nossa, fiquei muito curiosa e com muita vontade, de ler esse livro, parece ser bem bacana.
    Adoro livros que traz ação, fantasia e romance.
    Bjs

  • Rayme
    10 julho, 2015

    Oi Pah,
    não faz muito tempo que uma professora da faculdade estava me falando deste livro. ela comentou sobre a verdadeira história também e tudo o mais…
    parece ser uma trama ótima, a unica coisa que me incomoda um pouco é no fato de ter 3 narradores… não curto muito quando acontece isso, mas ainda assim pretendo ler ele, pois realmente parece ser ótimo!!
    tramas com problemas assim, apesar de me agradarem bastante, me deixam bem tristes ;x

  • Sabrina Costa
    10 julho, 2015

    Livros assim são uma preciosidade. Amizade, aventura, sem falar no desenvolver dos personagens. Gostei muito de saber que esse livro tem um tema mais maduro. Pela sinopse, percebe-se que a história tem tudo para ser incrível, mas a resenha me fez perceber que ele realmente deve valer a pena. *-*
    Gostei muito da resenha. <3

  • Aciclea vieira
    10 julho, 2015

    Paola,ação,fantasia e romance é uma combinação perfeita, com temas reais e reflexivos fica melhor ainda. Personagens jovens,imaturos,porém por passarem por muitas provações refletem no olhar o peso da solidão,da pobreza,da fome…tanto por carinho e alimento e também os anos de abuso físico,moral e sexual.Que cidade sombria senti aqui a sensação,murada isolada,Hank Nam que nome !!! Repleta de bandidos e de desabrigados das cidades vizinhas.E quantos crimes!!!Dai,Mei Yee e Jin,narrado em três pontos de vistas.Histórias e perdas que nos fazem refletir.Encantador ,dramático e reflexivo.Achei interessante essa cidade já ter existido. Entrou para minha lista.Beijos!!!!

  • Crika Regina
    09 julho, 2015

    Medo dessa cidade murada!!! Mas achei interessantíssimo. Obrigada por tb compartilhar a curiosidade onde explica sobre a já existência da tal cidade, fui lá conferir, é claro. E vou ler o livro com certeza!! Deve ser um lugar desesperador e ter situações bem tensas e tristes pros jovens, mas sabe que gosto de ler sobre essas realidades que sabemos que existem por aí, mas não temos acesso? Como por exemplo, a vida nas favelas, prostituição, presídios, enfim.. Acho que a Cidade Murada se encaixa perfeitamente nisso. Adorei a resenha, Pah!