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Escrito em 1985, o romance distópico O conto da aia, da canadense Margaret Atwood, tornou-se um dos livros mais comentados em todo o mundo nos últimos meses, voltando a ocupar posição de destaque nas listas do mais vendidos em diversos países. Além de ter inspirado a série homônima (The Handmaid’s Tale, no original) produzida pelo canal de streaming Hulu, o a ficção futurista de Atwood, ambientada num Estado teocrático e totalitário em que as mulheres são vítimas preferenciais de opressão, tornando-se propriedade do governo, e o fundamentalismo se fortalece como força política, ganhou status de oráculo dos EUA da era Trump. Em meio a todo este burburinho, O conto da aia volta às prateleiras com nova capa, assinada pelo artista Laurindo Feliciano.

Distopia Editora Rocco • 71 Páginas Classificação: 5/5
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Faz algum tempo que terminei a leitura de O Conto da Aia, contudo, confesso que ainda me pego revivendo algumas das emoções que a trama gerou: angústia, surpresa, incredulidade, raiva e, principalmente, medo. Nessa obra somos convidados a imaginar um mundo em que a mulher perde todos os seus direitos, sendo rotulada de acordo com sua capacidade de ter filhos. Ou seja, enquanto lemos somos questionados sobre o papel da mulher na sociedade e a importância que damos aos direitos, sociais ou não, que demoramos séculos para alcançar – o que é, sem dúvida, muito assustador.


Ela é uma Aia. Não tem nome, pelo menos não mais como antes, agora ela é a Aia de uma nova casa e tudo o que precisa é se preocupar em conceber o filho do comandante – um filho perfeito e que não morra logo depois do nascimento. Antes, ela era mãe, trabalhava em uma editora, tinha um companheiro presente e carinhoso, e levava uma vida normal. Mas agora, depois da revolução, nossa protagonista perdeu tudo o que tinha de mais valioso: sua família, sua filha, sua rotina, seus direitos sociais e políticos, seu nome, e sua liberdade de tomar decisões e fazer escolhas. Ela foi treinada para não questionar o sistema, para achar seu corpo impróprio e estranho, para frear seus pensamentos e desejos e, principalmente, para viver para gerar vidas (como uma vaca reprodutora, talvez?). Mas, não se engane, seu comportamento conformado não significa que ela esqueceu o que é ser uma mulher livre.

O Conto da Aia é um livro repleto de significados: por trás do novo nome da protagonista, da posição social das pessoas que convivem com ela, das roupas usadas pelas aias, do sistema e de suas imposições religiosas (por sinal, um exemplo real de como o fanatismo pode roubar o lugar da verdadeira fé), e até mesmo da rotina social detalhada ao logo das páginas. De fato, tudo por trás dessa história dá abertura para inúmeras reflexões e aprendizados, por isso, trata-se de um livro que marca e abocanha o coração do leitor. No meu caso, um dos pilares mais marcantes foi conhecer esse mundo novo em que a taxa de natalidade caiu para quase zero – por conta da radiação, ou seja, algo que não foge tanto da nossa relação atual – e para o qual o papel da mulher virou exclusivamente o de ser provedora: dona de casa, cozinheira, esposa, mãe ou apenas uma barriga de aluguel.

Foi agonizante acompanhar a jornada da protagonista e entender os absurdos dessa nova sociedade, e não só por ser triste e cruel, mas pelo fato da narrativa mesclar a rotina diária da Aia, seus pensamentos irônicos e sinceros, e suas lembranças da alegria por trás da simplicidade da vida de antes. E, veja bem, entrar na mente de uma mulher que tinha tudo, assim como nós, e de um dia para o outro não tem mais nada a não ser seu útero bom, é inexplicável. Sério, faltam-me palavras para descrever tudo que vivi e aprendi com essas páginas. Sei que o teor político da obra é alto (o que não agrada todo mundo, mas no meu caso fez eu amar ainda mais a trama), mas acho que o mais importante é a mensagem que fica: precisamos dar valor ao simples fato de ir e vir, de comprar uma roupa legal ou comer um doce quando bate a vontade. Coisas simples, mas que nos ajudam a lembrar de quem somos e/ou queremos ser.

Vale salientar que a narrativa não é das mais fáceis – a mescla entre presente e memórias pode deixar a trama um pouco confusa em alguns momentos. Ainda assim, vale muito a pena. Eu comecei a ler, a narrativa não engrenou, dei um tempo, retomei a obra umas semanas depois, e no fim acabei fazendo uma das melhores leituras do ano.

Indico muito. Para todos, mas principalmente para nós, mulheres. 





Beijos


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