setembro 26, 2016

[Resenha] Persépolis – Marjane Satrapi

Marjane Satrapi tinha apenas dez anos quando se viu obrigada a usar o véu islâmico, numa sala de aula só de meninas. Nascida numa família moderna e politizada, em 1979 ela assistiu ao início da revolução que lançou o Irã nas trevas do regime xiita – apenas mais um capítulo nos muitos séculos de opressão do povo persa. Vinte e cinco anos depois, com os olhos da menina que foi e a consciência política à flor da pele da adulta em que se transformou, Marjane emocionou leitores de todo o mundo com essa autobiografia em quadrinhos, que só na França vendeu mais de 400 mil exemplares. Em Persépolis, o pop encontra o épico, o oriente toca o ocidente, o humor se infiltra no drama – e o Irã parece muito mais próximo do que poderíamos suspeitar.

Drama; Autobiografia| 352 Páginas| Cortesia
Quadrinhos na Cia| Skoob |
Compare & Compre: Saraiva
SubmarinoAmazon| Classificação 5/5
Persépolis é a
biografia de Marjane Satrapi: Iraniana, nascida em 1969, ilustradora e
romancista gráfica. No auge da sua vida adulta, Marjane resolveu voltar no
tempo e escrever sua história de vida através de quadrinhos intensos e
tocantes. Nascida em um Irã muito diferente do qual conhecemos, a autora
descreve os detalhes de sua infância e adolescência em meio a um cenário
político repressivo e autoritário. Assim, além de discorrer sobre seu
amadurecimento como mulher (e todos os dilemas típicos do crescimento de uma
criança e de um adolescente), Marjane também detalha – com os olhos aguçados de
uma menininha de dez anos criada em uma família moderna e amorosa – o início da
revolução xiita e as imposições políticas que mudaram completamente o cotidiano
dos Iranianos. Unindo dúvidas, questionamentos, liberdade de expressão e
repreensão política, Marjane nos faz mergulhar em uma história real cheia de medo, perda e dor.

A trama inicia com Marjane aos dez anos tendo que enfrentar
a primeira consequência da revolução xiita: Usar véu na escola e passar a estudar em um colégio exclusivo para
mulheres. Para a menina a nova regra é absurda e digna de protestos – como seus
pais são abertos a conversas políticas, Marjane sente-se livre para falar com
eles sobre as mudanças no Irã, o que significa que desde pequena ela entende
que está vivendo um momento de repressão. O fato é que várias atitudes
políticas fizeram do Irã uma teocracia (poder político fundamentado na
religião) extremamente autoritária; para os novos governantes os fundamentos do
islamismo precisavam ser seguidos á risca. Ou seja, nada de meninas sendo
consideradas iguais aos meninos, nada de mulheres sem véu, nada de escolas
iguais para os gêneros, nada de maquiagem, de música pop, de marcas e símbolos ocidentais,
de festas, bebidas, e muito menos de noites de diversão… Assim, enquanto
Marjane cresce e se torna uma mulher, ela também vai discorrendo sobre esse
cenário conturbado de repreensão e as sequelas que ele deixou em sua vida.
O traço de Marjane é limpo e simples – algo que me agradou
bastante – e sua narrativa é cheia de vida. Desde pequena a jovem é direta e
revolucionária. O fato é que ela foi criada para ser quem quisesse ser, então a
revolução xiita mexeu com seus nervos ao ponto de fazer dela uma narradora
ativa, feroz e cheia de opiniões impopulares. Ao contrário da maioria, Marjane decide
não ficar calada e não abaixar a cabeça para o regime e, exatamente por isso,
sofrerá grandes consequências: perdas, preconceito dos próprios amigos, inúmeras “quase prisões”, abandono
do lar e, principalmente, a saudade do conforto e do amor que só encontra no abraço
dos pais. Então claro que é impossível não amar a personagem, sua força e
determinação, e seu papel nessa revolução tão importante para os Iranianos. Além
disso, gostei de como a trama traz os dois lados da vida de Marjane: o
crescimento em meio á revolução e as dúvidas políticas e religiosas que vão
surgindo ao longo da sua caminhada. Temos dilemas como amizade, nova escola, a
necessidade de ter roupas da moda, a aceitação do próprio corpo e beleza, as
primeiras vezes (primeiro beijo, primeira noite com um cara, primeiro amor) e
as responsabilidades da vida adulta (faculdade, emprego, casamento).  E tudo isso só colabora para que a leitura fique
ainda mais real e envolvente. Afinal, Marjane é apenas uma garota que quer ser
livre mas que nasceu em um país em que a liberdade é para poucos.
Nunca havia lido nada sobre o Islã, na realidade sabia muito
pouco sobre a revolução xiita e até mesmo sobre as regras religiosas que
dominam esse país. Assim, não só foi desafiante aprender sobre essa cultura e a
história dessa região, como também foi revoltante mergulhar em tramas políticas
que cegam a população com uma doutrina religiosa que foge de tudo o que fomos
criados para acreditar: na soberania do amor. Sei que vejo com olhar
estrangeiro, mas durante a leitura não consegui parar de pensar em como esse
povo é oprimido pela religião – uma religião que deveria libertá-los com amor,
e não dominá-los com ódio. E mais, em como as mulheres Iranianas sofrem com o
machismo velado dessa cultura. Elas não podem ser elas mesmas, não podem
conhecer o mundo, não podem experimentar o diferente e, o maior absurdo, precisam
se cobrir para não tentar os homens! Sem dúvidas é impossível não refletir sobre
a mensagem que a autora traz: as dores da politização da religião.
(Reprodução)
Doeu ler esse livro, doeu ver o quanto Marjane sofreu, doeu
levar um baita tapa na cara de uma população que tem sua história negligenciada
pelo mundo, e doeu terminar a leitura com a sensação de que somos incapazes de
mudar os avanços da dominação política nessa região. Trata-se de um livro que
nos tira da nossa zona de conforto, que nos ensina muito sobre política e sobre
o papel da mulher. Amei e indico de olhos fechados.

• Curiosidade •

A história da Marjane Satrapi é tão impactante que teve seus
direitos de adaptação adquiridos para o cinema. Além disso, o filme que foi
premiado em Cannes e indicado ao Oscar na categoria de melhor animação.
Dá uma espiadinha no trailer (comecei a assistir e estou
gostando bastante):

Beijos,


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8 Comentários

  • RUDYNALVA
    29 setembro, 2016

    Pah!
    Comecei a ler livros em HQ esse ano e tenho gostado dos que li. Esse já tinha lido algumas resenhas e o que mais me atrai foi por ser uma história que se passa em um pa´si bem diferente de nossa cultura.
    “A sabedoria só nos chega quando não precisamos mais dela.” (Che Guevara)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

  • Micheli Pegoraro
    29 setembro, 2016

    Oi Pah,
    Amei que você trouxe a resenha desse livro, pois quero muito conhecer a história dessa mulher, dessa personagem cheia de sua força e de determinação. Com certeza é uma leitura impactante, envolvente e cruelmente realista, não conheço muito dessa cultura, mas a sensação é angustiante e dolorosa cada vez que leio ou assisto um noticiário das atrocidades da dominação política nessa região. Saber que não podemos fazer nada, que somos incapazes de mudar essa realidade é cruel demais. Livro mais do que recomendado.
    Beijos

  • Mariana Ogawa
    27 setembro, 2016

    desda a primeira vez que eu ouvi falar desse livro/HQ eu fiquei super curiosa
    não sou muito fã de biografia, mas acho que essa além de mostrar a vida de uma pessoa é algo que acontece com várias
    sem falar que eu adoro HQ e uma história que fuja dos super herois é sempre bom, né? pois além de tudo serve de reflexão

  • Eduarda Rozemberg
    27 setembro, 2016
  • Márcia Saltão
    27 setembro, 2016
  • Thatiane Oliveira
    26 setembro, 2016
  • Bruna Lago
    26 setembro, 2016
  • Theresa Cavalcanti
    26 setembro, 2016