[Resenha] Persépolis – Marjane Satrapi

Marjane Satrapi tinha apenas dez anos quando se viu obrigada a usar o véu islâmico, numa sala de aula só de meninas. Nascida numa família moderna e politizada, em 1979 ela assistiu ao início da revolução que lançou o Irã nas trevas do regime xiita - apenas mais um capítulo nos muitos séculos de opressão do povo persa. Vinte e cinco anos depois, com os olhos da menina que foi e a consciência política à flor da pele da adulta em que se transformou, Marjane emocionou leitores de todo o mundo com essa autobiografia em quadrinhos, que só na França vendeu mais de 400 mil exemplares. Em Persépolis, o pop encontra o épico, o oriente toca o ocidente, o humor se infiltra no drama - e o Irã parece muito mais próximo do que poderíamos suspeitar.
Drama; Autobiografia| 352 Páginas| Cortesia Quadrinhos na Cia| Skoob | Compare & Compre: SaraivaSubmarinoAmazon| Classificação 5/5
Persépolis é a biografia de Marjane Satrapi: Iraniana, nascida em 1969, ilustradora e romancista gráfica. No auge da sua vida adulta, Marjane resolveu voltar no tempo e escrever sua história de vida através de quadrinhos intensos e tocantes. Nascida em um Irã muito diferente do qual conhecemos, a autora descreve os detalhes de sua infância e adolescência em meio a um cenário político repressivo e autoritário. Assim, além de discorrer sobre seu amadurecimento como mulher (e todos os dilemas típicos do crescimento de uma criança e de um adolescente), Marjane também detalha – com os olhos aguçados de uma menininha de dez anos criada em uma família moderna e amorosa – o início da revolução xiita e as imposições políticas que mudaram completamente o cotidiano dos Iranianos. Unindo dúvidas, questionamentos, liberdade de expressão e repreensão política, Marjane nos faz mergulhar em uma história real cheia de medo, perda e dor.

A trama inicia com Marjane aos dez anos tendo que enfrentar a primeira consequência da revolução xiita: Usar véu na escola e passar a estudar em um colégio exclusivo para mulheres. Para a menina a nova regra é absurda e digna de protestos – como seus pais são abertos a conversas políticas, Marjane sente-se livre para falar com eles sobre as mudanças no Irã, o que significa que desde pequena ela entende que está vivendo um momento de repressão. O fato é que várias atitudes políticas fizeram do Irã uma teocracia (poder político fundamentado na religião) extremamente autoritária; para os novos governantes os fundamentos do islamismo precisavam ser seguidos á risca. Ou seja, nada de meninas sendo consideradas iguais aos meninos, nada de mulheres sem véu, nada de escolas iguais para os gêneros, nada de maquiagem, de música pop, de marcas e símbolos ocidentais, de festas, bebidas, e muito menos de noites de diversão... Assim, enquanto Marjane cresce e se torna uma mulher, ela também vai discorrendo sobre esse cenário conturbado de repreensão e as sequelas que ele deixou em sua vida.

O traço de Marjane é limpo e simples – algo que me agradou bastante – e sua narrativa é cheia de vida. Desde pequena a jovem é direta e revolucionária. O fato é que ela foi criada para ser quem quisesse ser, então a revolução xiita mexeu com seus nervos ao ponto de fazer dela uma narradora ativa, feroz e cheia de opiniões impopulares. Ao contrário da maioria, Marjane decide não ficar calada e não abaixar a cabeça para o regime e, exatamente por isso, sofrerá grandes consequências: perdas, preconceito dos próprios amigos, inúmeras “quase prisões”, abandono do lar e, principalmente, a saudade do conforto e do amor que só encontra no abraço dos pais. Então claro que é impossível não amar a personagem, sua força e determinação, e seu papel nessa revolução tão importante para os Iranianos. Além disso, gostei de como a trama traz os dois lados da vida de Marjane: o crescimento em meio á revolução e as dúvidas políticas e religiosas que vão surgindo ao longo da sua caminhada. Temos dilemas como amizade, nova escola, a necessidade de ter roupas da moda, a aceitação do próprio corpo e beleza, as primeiras vezes (primeiro beijo, primeira noite com um cara, primeiro amor) e as responsabilidades da vida adulta (faculdade, emprego, casamento).  E tudo isso só colabora para que a leitura fique ainda mais real e envolvente. Afinal, Marjane é apenas uma garota que quer ser livre mas que nasceu em um país em que a liberdade é para poucos.
Nunca havia lido nada sobre o Islã, na realidade sabia muito pouco sobre a revolução xiita e até mesmo sobre as regras religiosas que dominam esse país. Assim, não só foi desafiante aprender sobre essa cultura e a história dessa região, como também foi revoltante mergulhar em tramas políticas que cegam a população com uma doutrina religiosa que foge de tudo o que fomos criados para acreditar: na soberania do amor. Sei que vejo com olhar estrangeiro, mas durante a leitura não consegui parar de pensar em como esse povo é oprimido pela religião – uma religião que deveria libertá-los com amor, e não dominá-los com ódio. E mais, em como as mulheres Iranianas sofrem com o machismo velado dessa cultura. Elas não podem ser elas mesmas, não podem conhecer o mundo, não podem experimentar o diferente e, o maior absurdo, precisam se cobrir para não tentar os homens! Sem dúvidas é impossível não refletir sobre a mensagem que a autora traz: as dores da politização da religião.

(Reprodução)
Doeu ler esse livro, doeu ver o quanto Marjane sofreu, doeu levar um baita tapa na cara de uma população que tem sua história negligenciada pelo mundo, e doeu terminar a leitura com a sensação de que somos incapazes de mudar os avanços da dominação política nessa região. Trata-se de um livro que nos tira da nossa zona de conforto, que nos ensina muito sobre política e sobre o papel da mulher. Amei e indico de olhos fechados.
• Curiosidade •
A história da Marjane Satrapi é tão impactante que teve seus direitos de adaptação adquiridos para o cinema. Além disso, o filme que foi premiado em Cannes e indicado ao Oscar na categoria de melhor animação.
Dá uma espiadinha no trailer (comecei a assistir e estou gostando bastante):


Beijos,



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8 comentários:

  1. desda a primeira vez que eu ouvi falar desse livro/HQ eu fiquei super curiosa
    não sou muito fã de biografia, mas acho que essa além de mostrar a vida de uma pessoa é algo que acontece com várias
    sem falar que eu adoro HQ e uma história que fuja dos super herois é sempre bom, né? pois além de tudo serve de reflexão

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  2. Oi Pah,
    Amei que você trouxe a resenha desse livro, pois quero muito conhecer a história dessa mulher, dessa personagem cheia de sua força e de determinação. Com certeza é uma leitura impactante, envolvente e cruelmente realista, não conheço muito dessa cultura, mas a sensação é angustiante e dolorosa cada vez que leio ou assisto um noticiário das atrocidades da dominação política nessa região. Saber que não podemos fazer nada, que somos incapazes de mudar essa realidade é cruel demais. Livro mais do que recomendado.
    Beijos

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  3. Pah!
    Comecei a ler livros em HQ esse ano e tenho gostado dos que li. Esse já tinha lido algumas resenhas e o que mais me atrai foi por ser uma história que se passa em um pa´si bem diferente de nossa cultura.
    “A sabedoria só nos chega quando não precisamos mais dela.” (Che Guevara)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

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