julho 14, 2017

[Resenha] Outros jeitos de usar a boca – Rupi Kaur

Outros jeitos de usar a boca é um livro de poemas sobre a sobrevivência. Sobre a experiência de violência, o abuso, o amor, a perda e a feminilidade. O volume é dividido em quatro partes, e cada uma delas serve a um propósito diferente. Lida com um tipo diferente de dor. Cura uma mágoa diferente. Outros jeitos de usar a boca transporta o leitor por uma jornada pelos momentos mais amargos da vida e encontra uma maneira de tirar delicadeza deles. Publicado inicialmente de forma independente por Rupi Kaur, poeta, artista plástica e performer canadense nascida na Índia – e que também assina as ilustrações presentes neste volume –, o livro se tornou o maior fenômeno do gênero nos últimos anos nos Estados Unidos, com mais de 1 milhão de exemplares vendidos.

Poemas | 208 Páginas|  Editora Planeta| Skoob |
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Amazon| Classificação 5/5
Não é segredo o quanto amo narrativas
reais e reflexivas. Mesmo que os temas abordados sejam dolorosos ou que a
história pareça cruel, amo a
sensação de vivenciar as emoções descritas nas páginas de um livro. Portanto,
não é surpresa nenhuma o fato de eu ter amado a intensidade por trás da
narrativa de Outros Jeitos de Usar a Boca.
Lê-lo foi como mergulhar de cabeça nas dores, medos e inseguranças que afligem qualquer
ser humano. Os temas abordados não são belos e leves mas, ainda assim, é bonito
ver como a autora transforma dores e lembranças ruins em algo bonito e sincero.
Resumindo: Estou irremediavelmente apaixonada.

Para quem não sabe a Rupi Kaur
ficou famosa ao compartilhar seus poemas nas redes sociais. Ao falar de temas
reais que afligem toda a população – principalmente a feminina – a autora
ganhou milhares de fãs e, exatamente por isso, resolveu publicar um livro. A
ideia da obra era reunir seus poemas e compartilhar, através deles, importantes
mensagens sobre preconceito, feminismo, abuso, amor e solidão. Mas uma coisa
legal é que os temas dos poemas, que inicialmente vinham exclusivamente do dia
a dia da Rupi, mudaram. Em determinado momento a autora passou a receber relatos
de seus leitores e, a partir disso, começou a falar de assuntos ainda mais
tabus – fatos que ela foi capaz de vivenciar através das histórias
compartilhadas por seus seguidores. Ou seja, seus poemas são um tapa na cara da
sociedade porque falam de experiências
reais
, da menina que foi hostilizada
pelo namorado, da mulher traída pelo marido, da garotinha maltratada pelos
pais, do namorado abandonado, e da sobrinha estuprada pelo tio
. Além disso,
vale dizer também que o texto (ou um deles) que impulsionou a carreira da autora
aborda os estigmas da menstruação, algo que achei surreal de verídico
(principalmente quando levamos em conta o quanto somos incitados a não falar
publicamente sobre nosso período menstrual, como se isso fosse uma vergonha). Indico
esse post para quem
quer ver a tradução desse poema específico.

“Nós
menstruamos e eles veem como sujeira. como forma de chamar a atenção. doente. um
fardo. como se esse processo fosse menos natural que respirar. como se não
houvesse uma ponte entre este universo e o anterior. como se esse processo não
fosse amor. trabalho. vida. altruísta e impressionantemente belo.”

Entendendo um pouco mais sobre
a autora, vamos para o livro. A obra é dividida em quatro partes: a dor, o amor, a ruptura e a cura.
Nesses blocos a autora reúne poemas (e ilustrações também, viu?) de um mesmo
tema e descreve histórias de luto, perda, estupro, repressão, tesão, amor,
traição, término, perdão e recomeço. É a vida real diante dos nossos olhos, a
vida de uma forma meio cruel e sexual em alguns pontos, mas ainda assim é a
vida e suas nuances.
O primeiro bloco acabou comigo.
Chorei, muito, principalmente nos poemas com teor familiar (me vi em alguns
relatos sobre a dificuldade da filha em falar com o pai). No segundo bloco
fiquei impressionada, amei como a autora falou do amor sem omitir o desejo, o
toque, os beijos… Nesse tópico é importante dizer que, apesar do conteúdo
sexual, Rupi Kaur usa as palavras com cuidado, trabalhando com duplos sentidos
e sem a necessidade de ser obscena. No terceiro tópico, sobre a ruptura, fiquei
incomodada. Ler sobre términos, mentiras, dores, traições, tentativas e erros
nunca é fácil. E por último fiquei aliviada. A sensação é que, não importa a merda que a vida jogue em você, a cura
está no final do caminho a sua espera, pronta para reavivar seu coração.

“fique firme enquanto dói
faça flores com a dor
você me ajudou
a fazer flores com a minha
então floresça de um jeito lindo perigoso
escandaloso floresça suave
do jeito que você preferir
apenas floresça.”

Esse é o tipo de livro que
lemos rápidos, já que são poucas páginas e todas com poemas, mas que ainda
assim precisamos ler com calma. Cada página é uma bomba de emoções e sentidos,
principalmente quando o leitor se identifica com a história narrada, então é
importante ler a obra de coração aberto para todas as emoções – mesmo as
tristes e dolorosas – que ela carrega. Acho importante também falarmos sobre a
mensagem que a autora traz. Aqui ela nos mostra um pouquinho do dia a dia
feminino, da opressão por trás do nosso corpo e das nossas escolhas. Por isso,
ele é tido como um livro feminista. E, para mim, Outros Jeitos de Usar a Boca mostra muito bem o que é ser uma
verdadeira feminista, provando que o movimento não é esse ato monstruoso que a
mídia quer que acreditemos, mas apenas o ideal de esperar que o mundo nos
valorize do jeitinho que somos: menstruadas ou não, depiladas ou não, mães ou
não, donas de casa ou não, e assim por diante.
Sei que a resenha traz o
enfoque no público feminino – e acho que senti isso porque a autora é mulher,
porque eu sou mulher e porque fui, constantemente, marcada pelas emoções
descritas aqui. Mas esse é o tipo de obra que pode e deve ser lida por qualquer
pessoa. E que, se você abrir o coração, poderá te trazer a confiante sensação
de vitória: vitória sobre o medo, a dor, o trauma, a depressão. – Porque se no
final tudo acaba em cura, quem somos nós para perdermos a esperança?
Simplesmente leiam, vale muito a
pena.
Beijos,


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18 Comentários

  • Thatiane Góes
    19 fevereiro, 2018

    Eu amei esse livro, e com certeza vale a pena uma releitura. Apesar de a leitura ter sido rápida eu fiquei pensando nesse livro durante dias. Fiz um post no blog com meus trechos preferidos <3
    http://camarguices.blogspot.com.br/2018/02/trechos-de-outros-jeitos-de-usar-boca.html

  • Joilia Moraes
    05 agosto, 2017

    Li esse livro e do começo ao fim sentir cada sensação e emoção vivida pela autora ao escrever os poemas, realmente ao final é de sentir um alívio imenso e nos faz acreditar e ter uma esperança na vida que apesar dos pesares ainda há esperança, confesso que não faz parte do meu gênero de leituras mas fiquei encantada com o modo que a Rupi usa as palavras. Amei sua resenha, você tem sido minha inspiração, conheci seu canal a pouco tempo e já amo ♥. Você já leu A menina que roubava livros?

  • Malu 5
    31 julho, 2017

    Realmente é bastante forte, chorava toda hora, é um livro pra reler e reler.
    Essa resenha está maravilhosa e a matéria sobre o poema muito verdadeira, não sabia sobre a foto.

  • Lily Viana Music
    27 julho, 2017

    Olá Pah,
    Que livro em, fiquei bem admirada com o poema que você colocou para dar uma forma de entender o que há no livro. Temas assim que acontece no dia a dia de alguém, realmente e muito pessado e triste, é difícil aguentar tudo isso e lendo assim os poemas, poesias e frases faz você sentir também o que realmente que transmitir o livro. Gostei muito dele!

  • Sara
    19 julho, 2017

    Apesar da ótima resenha, não sei se eu leria. :/ Contudo, valeu a pena conhecer um pouquinho da história pelo seu ponto de vista, Pah.

    Um abraço! <3

  • RUDYNALVA
    19 julho, 2017

    Pah!
    Euzinha amo livros de poesias e ando bem feliz por ver que estão voltado ao mercado, porque passaram um tempo sem serem editados.
    Adorei um livro com poemas voltados exclusivamente para o mundo feminino e achei maravilhoso que os temas foram divididos e podemos apreciar cada uma das poesias, lindo mesmo!
    “Educar é semear com sabedoria e colher com paciência.” (Augusto Cury)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE JULHO 3 livros, 3 ganhadores, participem.
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

  • Micheli Pegoraro
    19 julho, 2017

    Oi Pah,
    Estava aguardando essa resenha ♡, pois desde que vi você falando bem desse livro em um vídeo eu fiquei intrigada para saber do que se tratavam esses poemas.
    Também amo demais livros que trazem narrativas reflexivas e reais, mesmo que alguns dos temas inseridos sejam dolorosamente cruéis. Adoro uma narrativa nua e crua.
    Tudo indica que esses poemas irão mexer muito comigo. São tocantes, inspiradores e extremamente reflexivos ao abordar experiências reais do cotidiano feminino. Adorei a proposta dos poemas, traz uma mensagem e tanto.
    Estou ansiosa para ler esse livro, uma vez que quero muito começar a ler poemas, que até então é um estilo que não tenho o costume de ler.
    Beijos

  • caroljobim
    18 julho, 2017

    Estou muito ansiosa para ler esse livro! Já encomendei online 🙂

  • Lara Cardoso
    18 julho, 2017

    Desde quando eu vi a jout jout falando sobre esse livro fique toda doida pra ler, agora mais ainda. Que resenha linda ♥
    Quero adquirir o meu o quanto antes!

  • Arindiauane
    17 julho, 2017

    Concordo com você,Pah! Todos deveri ler,sejam homens ou mulheres,é até bom alguns homens lerem,porque ainda vemos o quanto o maxismo predomina em muitos lugares do mundo,o quanto ainda existem homens que repreendem as mulheres e não sabem um terço do quanto sofremos ou temos que passar para conseguirmos nosso lugar numa sociedade marcada pela opressão e desigualdade.
    Tema interessante, que num primeiro momento achei que fosse um livro de romance bem sensual,mas que depois da leitura da sua resenha,percebi que é um ensinamento promissor que precisa ser levado a sério,para mudarmos um pouco a visão do mundo em.que vivemos, passando a conscientizar a todos, que as mulheres, apesar de ainda serem reprimidas e ganharem menos que os homens, fazem coisas iguais a eles e muitas vezes, fazem muito mais do que eles (sem querer desrespeitar a classe masculina, porque tudo tem sua excessão, nem todos os homens tratam as mulheres de forma rude). Belo livro, prentendo lê-lo sim.
    Beijos!

  • Oderlane Carvalho
    17 julho, 2017

    Eu não sabia o que esperar deste livro. Foi bom ter visto sua resenha para que eu me abra a oportunidade de lê-lo. Não imaginava que se tratava de algo tão profundo. O título me remetia a mais um livro de conteúdo erótico. Mas acho que foi a forma que a autora usou para chamar atenção dos assuntos. Parece que o livro grita para ser lido. Muito interessante!

  • Manu Cardoso
    16 julho, 2017

    Eu acho tão importante debater os temas que a Rupi Kaur aborda, mas acho tão triste ler sobre isso… Estou tão acostumada a ligar a leitura ao prazer!!
    No entanto, a sua resenha teve o poder de me deixar com vontade de conhecer o livro!
    =)
    bjs

  • Monique Caetano
    15 julho, 2017

    Amei sua resenha Pah!!! Não é meu gênero preferido de leitura, mas sua resenha me incentivou a ler!!! Pretendo ler em breve!!!

  • Nayane Evylle
    15 julho, 2017

    Oi Pah!
    Eu to ansiosa pra ler esse livro. Adoro poemas, porque eles são carregados de realidade e ironia. Adoro isso. Não sabia que a autora tinha feito sucesso com as publicações na internet. Achei muito legal o livro ser baseado nas histórias que mandaram pra ela. Isso acaba tornando a coisa mais real.
    Adoro estudar sobre o movimento feminista e sei muito bem que esse movimento não é só pras mulheres. Gostei que ela inseriu temas recorrentes com as mulheres e isso aguçou ainda mais minha vontade.
    Bjs

  • Camilla Campos
    15 julho, 2017

    Meu Deus Pah, acho q essa foi uma das suas resenhas mais profundas e q eu mais gostei, deu p ver o quão conectada vc estava com esse livro, e já vi q vou amar, nunca tinha ouvido falar nele, mas já vi q já irei colocar na minha lista de favoritos sem ao menos ler…
    "Porque se no final tudo acaba em cura" assim eu espero, pq de dor eu entendo e foi isso q me fez ter interesse em ler o livro, parabéns para a autora e a vc Pah, pela resenha, tenho ctz de q irei ficar bem conectada com os pemas.

  • Leticia Golz
    15 julho, 2017

    Nossa, Pah! Que resenha mais incrível!
    Esse livro tem sido tão elogiado, até entrou para a lista de mais vendidos, você viu?
    Adoro leituras assim, por mais que sejam dolorosas, e acho que é principalmente por isso. Imagino o quanto as palavras da autora deve tocar o leitor, deu para sentir na sua avaliação.
    Estou ainda mais curiosa para ler o livro.

  • Bruna Lago
    14 julho, 2017

    Ultimamente, as leituras estão sendo maravilhas ne Pah? Cinco pontos 🙂
    Não sou muito de ler poema, mas os temas desse livro deixa a gente na perspectiva de ler e conhecer o que o autor traz.
    Que ideia legal a de trazer seus poemas soltos para um livro, realmente não são temas fofos e bonitinhos, mas de uma dureza e realidade que não podemos fugir. Imagino que mereça mesmo a nota máxima! Abraços