outubro 11, 2017

[Resenha] O Grito dos Caluniados–Sylvia Busko

Irritada com o trânsito após sair de uma sessão de terapia em grupo e indignada com a notícia da morte de um antigo amante que não a via desde que foram separados por uma calúnia, Ághata decide fazer uma pausa em seu trajeto para casa, se encontrando com sua melhor amiga em um “café de esquina”. Em meio a um debate no estilo “filosofia de boteco”, as duas mulheres iniciam um ferrenho diálogo, alternando considerações acerca de religião, política e comportamento humano, com os relatos das histórias contadas na sessão de terapia. Ao mesmo tempo em que tenta convencer sua amiga de suas convicções, Ághata passa a travar uma batalha pessoal contra o mundo e contra si mesma, ao expor suas opiniões sobre os perigos da crença cega em um suposto criador em detrimento da criatura e do uso leviano da linguagem, “herança maldita do fruto da árvore do conhecimento”, segundo ela. Ao final da longa conversa, inebriada por sentimentos de ira e indignação, Ághata acaba por exorcizar sua culpa pela morte de seu amado Fabrício, ao concluir que o dom da linguagem nas mãos de pessoas pequenas possuidoras de mentes fétidas nada mais é do que um objeto de destruição e, sendo este uma arma, assim como a espada, só pode ser combatido com a mesma arma – palavra por palavra.

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O Grito dos Caluniados é,
como o próprio título diz, um grito sobre as injustiças do mundo moderno. Nessa
história conhecemos uma mulher assolada pela dor da perda e que, ao invés de se
entregar ao choro, inicia um debate sobre a hipocrisia que vê nas pessoas ao
seu redor – ela está cansada de viver em uma sociedade que não sabe amar e
respeitar o próximo. Assim, em teor de desabafo e desespero, o livro incita uma
torrente de reflexões valiosas sobre fanatismo, inveja, calúnia e,
principalmente, sobre a maldade que reina em nossos corações.

Ághata saiu da sessão de terapia em grupo com a mente
repleta de questionamentos, mas o pior de tudo foi o golpe que levou logo em
seguida: a descoberta da repentina morte de Fabrício, seu antigo amor. Tais
momentos, que sugaram sua força emocional, fizeram com que Ághata parasse em um
café na tentativa de desanuviar os pensamentos. Lá ela engata um bate-papo com
uma amiga e começa a despejar tudo o que está sentindo: a revolta com os casos
debatidos na terapia e a dor narrada por seus companheiros, a morte de Fabrício
e o fato dela se culpar por ter deixado
que isso acontecesse, e uma grande revolta com o mundo. Assim, a história é
guiada pelos sentimentos complexos, raivosos e dolorosos que essa mulher
carrega no peito. E seu diálogo é uma tentativa de controlar o caos emocional
que suga suas forças.
Uma coisa bacana é que o livro é quase todo narrado em forma
de um diálogo. Ághata se acomoda em um café e engata uma conversa com uma
amiga, papo que rege toda a leitura. E o bom é que isso deixa a história rápida
e ler, ao mesmo tempo em que permite uma abordagem direta de temas complexos
como religião, calúnia e hipocrisia social. A ideia é mergulharmos na mente
dessa mulher e entendermos o que ela está vivendo: a dor da perda, a culpa, a
solidão e, obviamente, a revolta. O que Ághata mostra nessa conversa é que está
cansada de um mundo onde as pessoas só conseguem julgar, maltratar e pensar em
si mesmas. Aquela velha conversa de que só o nosso umbigo conta, sabe? Nesse
ponto outra coisa bacana é que a autora faz uso de inúmeras teorias e citações –
grandes nomes da literatura, filósofos e até menções bíblicas são usados para
dar voz aos pensamentos dessa protagonista.
Paralelo ao desabafo, também temos o segredo por trás da morte
de Fabrício, algo que Ághata só conta nas últimas páginas e que elucida algo
que acredito MUITO: o perigoso efeito bola de neve. Uma mentira, calúnia ou
fofoca – por menor que seja – pode mudar completamente a vida de uma pessoa. Então
precisamos cada vez mais trabalhar os conceitos de diversidade, respeito mútuo
e sinceridade. Você não precisa concordar comigo, mas precisa respeitar que sou
um ser com opiniões, desejos e sonhos – mesmo que eles pareçam completamente
sem sentido para você.
Nunca tinha lido algo todo estruturado em diálogos e achei
isso bem inovador. Porém, preciso salientar que as opiniões impressas no livro
são bem duras e que nem todo leitor concordará com os ideais da Ághata. Ela tem
um jeito duro de ver o mundo e extremamente crítico – algo que me incomodou,
pois para mim vai contra a mensagem de aceitação que permeia a história. A
personagem fala sobre religião, crenças, escolhas e sonhos. Diz que o mundo
precisa desacelerar, observar e ajudar mais o próximo, mas ao mesmo tempo julga
– a partir de suas crenças – o que
não acha correto. Mas acho que todos nós fazemos isso, não é mesmo?
Por conta da dualidade por trás da protagonista, não posso
dizer que amei Ághata e seus posicionamentos. Apesar de entendê-la, não
concordei com algumas de suas visões sobre os ritos cristãos. Acho muito
perigoso a banalização da Igreja – você pode ir em uma missa ou culto e viver
uma experiência ruim, afinal a Igreja somos nós e todos cometemos falhas, mas
essa experiência não deve guiar o que
é a Igreja. O catecismo – utilizado pela Igreja católica, por exemplo – é rico
em explicações que mostram a importância de cada rito que experimentamos. E é
nele que devemos nos embasar, não em algo que vemos ou ouvimos falar. Por isso
acho que falar sobre religião em livros é algo perigoso, porque a experiência
da fé é algo muito único, e certas opiniões podem incomodar quem lê. Como no
meu caso, que me senti chateada com algumas divagações da protagonista. Mas,
mais uma vez, o bacana da vida é a dualidade do pensamento e o respeito. Somos
únicos exatamente porque somos, e acreditamos, em coisas diferentes.
No geral o livro traz mensagens importantes e levanta
debates que precisam ser feitos, ainda mais no mundo moderno. Além disso, tem
um final surpreendente e uni drama, superação, reflexão e um toque de romance.
Ficou curioso? Então conheça mais sobre a história aqui.
Beijos, 


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2 Comentários

  • Lara Cardoso
    21 outubro, 2017

    Não conhecia nem o livro nem a autora. A premissa não me chamou atenção.

  • Katharine Emídio
    12 outubro, 2017

    Pah, adorei a resenha! Eu achei interessante o enredo e me intrigou. Mas ainda não sei se vou partir para a leitura. Super Beijo